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sábado, março 03, 2012

João voltando...tudo novo de novo!!!


BAR RUIM É LINDO, BICHO!
Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

segunda-feira, abril 25, 2011

domingo, abril 10, 2011

e agora João???

Ah, João! Que saudade de você! Por onde anda? Não tens visitado nenhum buteco? Nunca mais te vi perdido, andando sozinho em zigue-zague por rua qualquer...

Teu cigarro apagou?
Tua garrafa secou?
Teu copo quebrou?
Teu amigo te abandonou?
Tua conta encerrou?

Nunca mais dançou Mutantes na calçada de sua casa?
Nunca mais pediu um abraço embrigado para um amigo qualquer?
Nunca mais cantou "velha roupa colorida" em cima da casa com seus amigos?


Ah, João! Por onde andas, João??
Que saudade de você...

quarta-feira, março 23, 2011

Crônica - Diferenças entre o bêbado profissional e o bêbado amador!

Sim, minha amiga, existem os amadores e os profissionais. E são facilmente reconhecidos. Pra começar o profissional está sempre penteado. Despenteou, esteja certa de estar diante de um bêbado amador.

O amador é chato. E não tem exceção. Ele pode até não ser chato quando sóbrio. Mas passou de terceira dose, é dose.

Não sei como, mas o bêbado profissional nem hálito etílico exala. Pelo contrário, chega a ser até perfumado. Já o bafo do amador chega até mesmo antes dele. Pior que hálito de bêbado amador, só mesmo de bêbada amadora. É mesmo uma desgraça.
O profissional jamais – jamais! - bate em mulher. Pelo contrário, chega com fala mansa e diz palavras leves. Geralmente leva. Apareceu falando alto, te cuida, é amador.
O BP (vamos chamar assim o bêbado profissional) sempre chega em casa dirigindo sem bater. Não se lembra como, é claro, mas chega. O BA nem acha o carro. E nem se lembra no dia seguinte. Acorda tentando reconstituir a noite para saber em que gole ficou a viatura.
BP que se preza jamais fala no ouvido da gente e muito menos coloca a mão no ombro da pessoa a quem se dirige. Já o BA é especialista em ouvidos, ombros e – mais tarde – colos. Também costuma conversar segurando na sua mão, seja homem ou mulher.
Quando um deles vem chegando com aquele olhar de bebum, basta olhar nos sapatos. O do BP está limpo. Do BA está – inclusive - desamarrado.

No tempo em que eu bebia - e me considerava profissionalíssimo – um conhecido escritor e BP foi até a minha casa. Servi um uísque para nós dois e ele perguntou:
- Quantas garrafas você tem em casa?
Diante de tal pergunta imaginei que ele fosse mamar (BP odeia essa expressão) mais que uma.
- Mas essa está cheia!..
- Você é amador! – e deu uma golada e uma gargalhada. – Amador! E eu que te considerava um profissional...
Fiquei indignadamente sóbrio:
- Como amador??? Como???
- Meu querido, um profissional do álcool não tem apenas uma garrafa em casa.
- Bem, eu tenho mais uma guardada.
- Oito, meu filho, oito!!! Um bom bebedor tem que ter no mínimo oito garrafas em casa. E da mesma marca.
- Mas eu não bebo nem uma por dia...
Ele, se servindo de mais uma dose:
- Pois é aí que mora o perigo, a culpa! Veja essa garrafa. Você fica bebendo e vendo ela se esvaziar rapidamente. De manhã ela estava cheia, de tarde já pela metade. De noite vazia. Ou seja, você fica bebendo e vendo o quanto você bebeu! Dá culpa, você se sente um alcoólatra. Se fosse um profissional, teria uma aqui na mesinha, outra ao lado do computador, outra no criado-mudo, na cozinha, na sala de jantar, uma perto da biblioteca e até uma no quarto das crianças. Não é a garrafa que deve circular pela casa. E sim o copo. E você. Assim, meu querido amador, você não sente a garrafa se esvaziando em algumas horas, na sua cara, te dedando, te culpando. Cada uma que você pega estará sempre quase cheia. E não dá culpa. Pensando bem, você nem percebe que está de pilequinho. Me serve outra. Olha aí, já bebemos metade. Assim não é possível! Faça-me o favor!

http://www.marioprataonline.com.br/

sexta-feira, março 18, 2011

Primeira chamada...

Eram 4h da manhã! Cheguei em casa com 6 latinhas de cerveja numa sacola. Sentei na cama e imaginei que beberia sozinho até amanhecer. Peguei o telefone...Do outro lado atenderam. Aceitaram meu convite...

Eram 8h da manhã....E estavámos chegando em casa com 7 latinhas de cerveja...

sexta-feira, março 04, 2011

e que vontade é essa de sentar num buteco, acender um cigarro, ter alguém pra jogar conversa fora, jogar uma sinuca, escolher as músicas, cantar alto, pedir outra cerveja, dar risada a toa e ver todo mundo indo embora???

"E nós sentamos num bar e conversamos até às duas
Sobre a vida e o amor como velhos amigos fazem
E contamos um ao outro pelo que temos passado
Como o amor é raro, a vida é estranha
Nada dura e as pessoas mudam" (Tradução Old Friend)

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

"Pelo ronco da campainha, essa véia já queimou a rosquinha...'

E como sabiamente ouvi hoje num filme "“Poesia ruim é melhor que bosta nenhuma!”, o malandro sabe que quando a “a vida tem seus sinais, pois basta ser amalucado o suficiente para entender”. (Do filme Quincas Berro d'água. Clique aqui)
quero ter um bando de amigo assim...hehehe! que me levem pra
gandaia, mesmo quando eu morto...

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Frase - literalmente...

"A vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido." Lya Luft
No sentido literal, beleza??!!

terça-feira, fevereiro 01, 2011

sexta-feira, janeiro 28, 2011

O retorno de João!

Era sexta-feira a noite. Eu estava na faculdade, assistindo a aula mais tediosa que se pudesse ter numa sexta-feira a noite. Meu telefone tocou. Sai pra fora da sala:

-Onde você tá?
-Tô na aula. Por que?
-Ia te chamar pra tomar uma cerveja comigo.
-Hum...
-Você vem?
-Você tá aonde?
-No barzinho de sempre...
-Hum..Tá bom...tô indo!
-Ok!
-Beijo!
-Beijo!
-Não demora, tá?
-Tá! Tchau!

Cheguei logo, como prometido! Ela lá, sozinha  na mesa com a cerveja do lado e o cigarro na boca. "-Que figura excêntrica"..pensei!

-Que demora..
-Demora???
-Tá! Pega um copo!
-Já peguei!
-Cigarro?
-Não..brigado!

Daí, um silêncio que durou exatamente dois copos!

-Por que você foge de mim?
-Não fujo...
-Então me dá um beijo!!!!

sexta-feira, janeiro 14, 2011

O fim de tarde duma sexta-feira

O pneu da moto havia furado! Sai do trampo, durante o horário do expediente, e levei a moto pra consertar! Em frente a borracharia havia um buteco. Enquanto o remendo era feito, sentei-me para tomar uma cerveja. Essa única cerveja,transformou-se em 03 cervejas junto com um amigo que sentou comigo ali, enquanto eu curtia o fim da tarde (e esse era o nome do buteco).

No buteco, dois homens discutiam porque um queria pagar a conta para o outro. Um deficiente, de bêbado, apoiou-se em mim para não cair enquanto levantava da mesa. Um senhor discutia no celular os próximos negócios agropecuários que lhe trariam dinheiro. Um outro senhor, carregado de correntes com a cruz cristã, despedia-se do dono do bar, enquanto levantava às costas seu saco plástico de garrafas plásticas catadas na rua. Dois amigos, numa outra mesa, combinavam que pegaria quem na festa que rolaria mais tarde.
Peguei a moto, comprei um capacete usado, na empolgação, do borracheiro e voltei para meu serviço. Contudo, duranteo trajeto, parei numa conveniência e comprei mais 03 cervejas.

3! Número cabalístico que me persegue!

Persegue o caraio! É só desculpa mesmo pra comprar 3!

Agora, termino a 3ª...Ouço blues e preciso ir embora...já escureceu...

quinta-feira, novembro 18, 2010

Rapidinha - Fiado

Putz, ontem me senti assim quando pedi para anotarem minha cerveja no buteco...
-"Eu lhe imploro, seu Zé...Venda uma cerveja pra mim!!"
me enche de vergonha!!

terça-feira, novembro 09, 2010

Eu não gosto do bom gosto!

"O bonito me encanta! Mas o sincero...Ah! Esse me fascina!" (Clarice Lispector)


Dia desses, no costumeiro buteco, eu e um amigo divagávmos sobre os nossos gostos e percebemos que não nos damos muito bem com o que muitos consideram belo, bonito e agradável.

"Eu não gosto do bom gosto / Eu não gosto de bom senso / Eu não gosto dos bons modos"

Seja a música, as roupas, a aparência, os hábitos, os livros...Nos damos bem com o desligado, desleixado, com o não-antenado! Nada de modinha, de gírias moderninhas, de cabelo aparadinho, de top hits, de best sellers, de última versão, do mais badalado...

"Eu hospedo infratores e banidos / Eu não julgo competência / Eu não ligo pra etiqueta / Eu aplaudo rebeldias"

Bom é viver sem tanta pressão, com esse suor, com esses pensamentos, com esse ritmo, a qualquer hora...

Eu gosto dos que têm fome / Dos que morrem de vontade / Dos que secam de desejo / Dos que ardem (Senhas)

quinta-feira, outubro 07, 2010

João e a carta!

João acabara de sair da faculdade. Poderia ir embora, mas resolveu tomar sua cerveja no costumeiro buteco. Sozinho e sóbrio, não se animou a chamar alguém. Estigma esse que parece lhe acompanhar. Contudo, não amaldiçoa sua sina. Pelo  contrário, a celebra! E, como um devoto que aceita sua missão, João toma sua cerveja...sozinho!

O clima está agradável! Da sua mochila pega um caderno com as bordas manchadas de café. Arranca uma folha e pensa em escrever algo. Mas o quê? Amor? Não, João não é desses que acredita na pureza desse sentimento, como os românticos costumam poetizar. Amor é interesse mútuo de duas almas solitárias que resolvem brincar juntas, pelo menos por um tempo.

Amor...amor...não vinha outra palavra na cabeça de João. E agora?? João já estava na segunda cerveja e precisava fazer algo para tornar aquele momento solitário mais ameno..."-Vou escrever sobre o amor!"

Inundado pelo sentimentalismo etílico de um bêbado comum, misturando frases de música que jovens gostam de ouvir, criando situações que gostaria de viver, tentando expressar sentimentos que nem acredita que existam, João começo a rabiscar....

Pegou outa cerveja e já com olhares curiosos dos outros bêbados do ambiente, empolgou-se a rabiscar...e rabiscou...

No outro dia, ao acordar, duas folhas amassadas, molhadas (de cerveja, provavelmente) estão na mesa de seu quarto...

João não acreditou que escrevera tudo aquilo... 

segunda-feira, outubro 04, 2010

sexta-feira, outubro 01, 2010

João no final de expediente

João olha o relógio: 16h26m...30 minutos para acabar o expediente.
Como será que tá o seu buteco?
Muita gente? Pouca gente? Universitários ou os bebinhos de sempre?
Perguntas aterrorizantes, ansiando respostas!
João liga pra um amigo:
"-E ai? Rola uma cerveja agora?"
"-Opa! Demorô!"

E João some na sua moto...

quarta-feira, setembro 29, 2010

João da Silva Santos


Segunda-feira de um dia qualquer de 2010,  vinte e duas horas...

Chove!

João caminha na rua escura.  Toma a direção do buteco onde costuma frequentar. Nele, apenas o dono e mais um senhor, que esta sempre por ali. O cumprimenta com a mão a cheiro de cigarro barato. Pede sua cerveja. Se esconde do frio e procura um lugar entre as mesas de sinuca. João toma o seu primeiro gole. Chega um jovem e pede uma dose de pinga raizada. O jovem senta no balcão e vira-se para a TV, que exibe os gols de um campeonato qualquer. João não se interessa. Toma seu terceiro copo. Um vira-lata moribundo senta sob sua cadeira. João joga um gole de cerveja no chão. O vira-lata moribundo não se anima. João não se irrita com a negligência do canino. Vontade de fumar. Se levanta e pede um cigarro ao senhor que esta no balcão. O cachorro moribundo não parece companhia agradável. João volta a se sentar.

Vontade de conversar!

João pega seu celular. Consulta seu saldo e vê que ainda tem 7 reais para gastar. Começa com a letra A. 1ª tentativa: "-Estou com minha filha! Se não eu iria!". 2ª desculpa: "-Minha mãe chegou de viagem!". 3ª: "-Estou a pé e longe daí...". "-Minha namorada vai embaçar!". "-Hoje não posso, vamos tomar quinta?" Não!!! João quer companhia agora!

Continua chovendo!

João levanta e pega a 2ª garrafa! O jovem que toma a raizada lhe oferece um gole. João aceita. O cigarro acaba. A chuva aumenta. João, o senhor e o jovem falam sobre a chuva. O jornal televisivo anuncia tempestades em regiões distantes. João compra um cigarro solto e volta para o seu lugar. Liga para um amigo distante. Quer divagar sobre o que pensavam no ano de 2004 e como a vida esta em 2010. Ninguém atende do outro lado. Os próximos instantes são estáticos. Nada acontece.

3ª garrafa.

O frio some. Segurando seu copo, João fica em pé na porta da frente. Alguém que passa de bicicleta lhe cumprimenta. O jovem da raizada lhe dá um tapa nas costas: "-Adeus, companheiro!" Adeus! João lembra de Deus.    "-Esquece, Deus está sóbrio, não vai divagar!". Um carro com universitários estaciona. Eufóricos, compram cigarros e cervejas. Eles ouvem alguma música que fala de "meteoro da paixão"! João queria blues! O senhor também vai embora e ironiza: "-Não vai durmir na rua, João!" A dona do buteco recolhe as mesas. João vira o último copo.

Acaba a cerveja.

João vai embora debaixo da chuva.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Culpa do Zé Boêmio!!!



Se era hoje um dia destinado às cores cinzentas de um tédio proveitoso, então, tal destino fora frustado. Agora é um dia destinado ao vermelho das faces coradas, envergonhadas e arrependidas! Mas, calma! Calma! Não aconteceu nada grave!
Acontece que, durante o meu horário de almoço, aqui mesmo no meu trabalho, resolvi "levar um amigo meu do interior pro rio" (ou fazer montinho, soltar um barrão, etc. As variações das expressões para o ato de cagar são infindáveis nesse Brasil de meu Deus!!!) e, não sei porque cargas d'aguas deixei a porta do banheiro aberta. Arriei as calças, minha cueca nova ainda sem manchas de freadas, sentei-me no vaso gelado, comecei a ler a revista que acabara de comprar (Rev. de História da Bib. Nacional) e, enquanto achava-me no "meu 1 minuto intelectual do dia" um batalhão de mulheres (universitárias gostosas, por sinal!!!) passaram em marcha em frente a porta da minha privada (que de "privada" não tinha nada)! Quando olharam para mim, naquele momento intímo e pessoal, algumas sairam correndo, outras ficaram a observar atônitas...Mas, todas, todas, gargalharam!!!

Ao me levantar para fechar a porta, a revista que outrora era alimento para o meu conhecimento, tornou-se a "folhinha que cobria as vergonhas de Adão"!

Depois daqueles eternos 05 segundos, não consegui mais obrar, não consegui mais ler, não consegui mais estudar!! O que ocupa meus pensamentos são aquelas gurias que, fervorosamente rezo,  nunca mais as veja ou que, no mínimo, que elas tenham se ocupado em olhar outros membros do meu corpo que não o meu rosto!!! Esta é minha petição ao meu Senhor!!

E falando em Senhor, acho que o culpado disso tudo foi o Zé Boêmio (entidade benigna duma religião que tô inventando) que, ontem, sabendo de minha devoção às suas santas práticas etílicas, arrebatou-me da sala de aula e, milagrosamente, levou ao seu Templo (buteco?), onde, juntamente com outros devotos de seus ensinamentos, compartilhamos do suco de cevada (Bebeis isso em memória de mim!)!

Acontece que, como efeito colateral, o santo suco de cevada do Zé Boêmio, deixa-nos um pouco lentos, desligados...Efeitos dos quais, creio eu, foram os motivos do meu lapso durante o meu "amontadinho"!!!

Mesmo assim, viva o Zé Boêmio!

quinta-feira, setembro 02, 2010

Buteco ruim é bom, bicho!

Refletindo sobre motivos, não somente etílicos, mas também meta-físicos, meta-sociológicos ou meta-qualquer coisa (hã?! hã?!) que me fazem apreciar um buteco, encontrei este pequeno texto de Antônio Prata que, antropologicamente, descreve e analisa o porquê "buteco ruim é lindo!"


Buteco ruim é lindo, bicho!!!

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).


No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Rapidinha - Filosofia de Bêbado